I Am Sober é um aplicativo gratuito que ajuda você a retomar o controle da sua vida.
A dependência é um assunto complexo, em grande parte por causa da desinformação ou, em alguns casos, de informações desatualizadas. Veja, por exemplo, o termo “alcoolismo”. Ele é tão vago quanto abrangente. É usado informalmente como termo genérico para dependência de álcool, abuso de álcool e necessidade física de álcool — condições que podem apresentar sintomas diferentes. Uma pessoa fisicamente dependente do álcool terá abstinência, enquanto alguém que abusa do álcool pode não ter abstinência, mas continuar consumindo a substância conscientemente apesar dos efeitos negativos persistentes.
Até a comunidade médica encontra dificuldades para chegar a um consenso sobre como diagnosticar alguém com um problema relacionado ao álcool, e os Estados Unidos e o Reino Unido divergiram por algum tempo. Ainda nos últimos cinco anos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) reuniu dois tipos — dependência de álcool e abuso de álcool — sob o termo Transtorno por Uso de Álcool (AUD). Até o AUD apresenta três níveis de gravidade, dependendo da combinação de sintomas, mas estou me desviando do assunto.
À medida que as pesquisas avançam, o público em geral entende cada vez menos a dependência. Por isso, aqui estão os 15 principais mitos sobre ela.
Este mito ocupa facilmente o primeiro lugar porque muitas pessoas com dependência ouvem de quem não conhece o assunto a pergunta: “Por que você simplesmente não para?”
O Transtorno por Uso de Álcool é crônico e recorrente: uma doença.
Embora a genética tenha influência, é importante considerar a plasticidade cerebral de cada pessoa. Algumas pessoas tomam uma xícara de café às 6:00 PM e não sentem nada; outras tomam café no mesmo horário e não conseguem dormir.
A dependência de drogas modifica as conexões do cérebro e aciona o mecanismo de “gratificação imediata”. Muitas drogas vão além e suprimem diversos receptores do sistema nervoso central, inclusive os relacionados à dor. Isso pode desencadear dependência física de imediato, fazendo com que a pessoa precise da droga para funcionar, de modo semelhante à fome extrema que alguém sem dependência poderia sentir. A pessoa se torna física e mentalmente dependente da droga, e desintoxicar o organismo e reequilibrar as substâncias químicas do cérebro exige muito esforço.
É uma ideia que geralmente não é dita em voz alta, mas muitas pessoas acreditam que quem vive com dependência debaixo de uma ponte chegou ali por causa do estilo de vida que levou. Isso não é verdade. Ninguém cresce querendo ter uma dependência.
Veja o tema— crise dos opioides—: os opioides são analgésicos, muitos deles altamente capazes de causar dependência e, por isso, sujeitos a prescrição. Porém, uma pessoa saudável que sofre um acidente de carro e recebe uma receita de analgésicos pode desenvolver dependência. Pior ainda: se a receita vencer — ou o plano de saúde deixar de cobri-la — e a pessoa começar a ter abstinência, ela buscará uma alternativa.
As pessoas que usam heroína quase nunca começam por ela.
Em geral, pessoas com dependência acabam na faixa de baixa renda por não conseguirem manter um emprego, continuar pagando aluguel e sustentar o consumo da substância.
Para desfazer esse mito, basta consultar esta publicação— People —ou ler a biografia de uma celebridade. Não importa qual seja a sua renda: você ainda pode enfrentar uma dependência, e muitas pessoas morrem por causa dela.
A reabilitação é um bom começo, mas não é possível resolver uma doença que dura a vida toda em um programa de 30 dias.
A dependência é uma doença crônica e recorrente, não um vírus passageiro. Para quem a enfrenta, é uma luta de 24 horas por dia no futuro próximo. Centros e clínicas de reabilitação são úteis para iniciar o caminho rumo à sobriedade, mas a recuperação exige uma rede de apoio muito maior. É preciso terapia, comunidade, reuniões e disciplina diária.
Muitas pessoas com dependência realmente chegam ao fundo do poço, mas isso não significa que precisem chegar até lá para perceber que têm um problema e precisam de tratamento.
O fundo do poço costuma mudar a vida de uma pessoa com dependência porque ela já não consegue pagar pela droga, e passar alguns dias sem usá-la pode trazer clareza suficiente para reconhecer o problema. Para algumas pessoas, fazer uma lista diária de metas pode ajudar a desenvolver um planejamento de “longo prazo”, em vez de acionar a gratificação imediata oferecida pela droga. Isso é útil porque um padrão comum é a dependência impedir que elas alcancem essas metas.
Para algumas pessoas, a vontade de passar tempo com os filhos é o que as leva à sobriedade. Para outras, ver a droga tirar a vida de amigos é o ponto de virada.
Além disso, se você é amigo de alguém que está sofrendo, não ignore a situação até que essa pessoa chegue ao fundo do poço. Lembretes constantes ajudam.
Não. Em primeiro lugar, a genética tem influência, mas a dependência não tem cura. A ideia de que teria cura leva muitas pessoas a trocar uma compulsão por outra. Se você tem dependência de álcool, não conseguirá tomar apenas um gole de vinho e parar por aí.
Ainda assim, fica mais fácil lidar com ela. A dependência causa um desequilíbrio químico no cérebro em que a “gratificação imediata” supera qualquer planejamento de longo prazo. E longo prazo pode significar apenas planejar uma ida ao supermercado naquela noite.
Daniel Kahneman explicou isso muito bem nesta obra— Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar—, ao mostrar que a parte “rápida” do cérebro é impulsiva e busca gratificação imediata; ela pode ajudar você a desviar de um carro vindo em sua direção. A parte lenta considera seu orçamento sempre que você faz uma compra ou toma uma decisão que afetará o restante do dia. Como a dependência permite que o lado “rápido” domine, o cérebro precisa recuperar o equilíbrio. Isso é difícil no início, mas fica mais fácil à medida que o equilíbrio é restabelecido.
Dito isso, precisamos abordar o próximo mito…
Embora seja verdade que não existe cura para a dependência, ela nem sempre definirá a sua identidade. Muitas pessoas diagnosticadas com uma doença terminal acabam definindo a própria vida por essa condição. A doença passa a determinar quem elas são, e essa identidade pode se tornar tão forte que, se por algum milagre forem curadas, podem entrar em depressão. A identidade que construíram deixa de existir, e elas ficam sem saber o que fazer ou como se definir.
Da mesma forma, embora a dependência seja uma doença crônica e recorrente que não pode ser esquecida, você não precisa se identificar como “drogado”, “dependente” ou “alcoólatra”. Muitas pessoas aproveitam essa oportunidade para se definir pelo próprio nome, não pela dependência. Os Alcoólicos Anônimos fazem isso, consciente ou inconscientemente, na frase de abertura: “Meu nome é (nome) e sou alcoólatra”. Você vem primeiro; a doença, depois.
A maioria das pessoas tem recaídas, e o Transtorno por Uso de Álcool é até definido como uma doença crônica e recorrente. Isso, porém, não significa que você terá uma recaída nem que ela seja um requisito para alcançar a sobriedade.
Converse em qualquer comunidade de sobriedade ou leia relatos de sobriedade e você encontrará inúmeros processos de pensamento associados a uma recaída. Algumas pessoas estão sóbrias há X dias e concluem, de forma equivocada, que conseguem consumir apenas um pouco. É claro que nosso cérebro não funciona assim. Se alguém pode desenvolver dependência de metanfetamina após um único uso, é muito provável que uma pessoa em recuperação retorne rapidamente ao estado anterior.
Outras pessoas ficam abatidas. Mesmo quando a vida vai bem, há uma voz no ombro insistindo que elas não têm valor, que nunca chegarão a lugar algum e que precisam de uma dose para sobreviver. Para algumas, isso pode se tornar muito sombrio e os pensamentos podem ficar suicidas. Esse é mais um motivo para contar com uma rede de apoio ampla e em vários níveis: não apenas uma ligação para o padrinho ou a madrinha, mas reuniões da comunidade, terapia individual, tempo para frequentar a reabilitação, conversas com amigos, um aplicativo de sobriedade e muito mais.
Uma recaída não é inevitável. Dito isso…
Recaídas não são incomuns e não devem ser vistas como fracasso. Reconhecer que existe um problema já é algo muito importante. Quantas pessoas com dependência passaram a viver nas ruas e a trocar favores para sustentar o consumo sem perceber o quanto sua dependência havia se agravado?
Mesmo que você tenha uma recaída, não estará voltando ao ponto de partida. Você já reconheceu que existe um problema e aprende com o processo, independentemente de ter passado 20 anos, 1 ano ou 1 semana em sobriedade. Você identifica o gatilho que levou à recaída e, dali em diante, sabe como superá-lo.
Algumas pessoas temem admitir que têm uma dependência. Quem tem dependência de álcool pode sentir que todos estão olhando quando os amigos querem ir a um bar ou quando um garçom pergunta o que cada pessoa vai beber. Se contar às pessoas presentes que você está em recuperação for um ponto sensível, existem formas de manter isso em privacidade.
Algumas pessoas usam desculpas como “Hoje sou o motorista da rodada” ou “Estou fazendo uma desintoxicação”. Outras encontram formas ainda mais criativas de evitar as desculpas de sempre. Se um garçom perguntar o que você quer beber, pode perguntar quais tipos de uísque estão disponíveis e, depois de ouvir a lista, torcer o nariz e dizer: “Deixa para lá, vou ficar com um chá”.
Ao contrário do ponto anterior, algumas pessoas optam por celebrar e compartilhar abertamente seu estilo de vida sem drogas. Para muitas, essa é uma ótima maneira de reforçar a própria responsabilidade. Se você alcança marcos e os compartilha nas redes sociais, também sentiria que estaria decepcionando muitas pessoas que acompanham sua história.
Ainda assim, a maioria das pessoas em recuperação não se preocupa com a forma como é vista. Quem não enfrenta uma dependência talvez não entenda como é difícil abandonar o consumo, porque isso não exige nenhum esforço de sua parte. Algumas pessoas dizem: “Eu não me dou uma ficha por cada dia sem heroína. Eu simplesmente não uso heroína”. Mas, para elas, isso não é um problema e não exige esforço. Uma pessoa com dependência precisa se dedicar conscientemente todos os dias à abstinência. Principalmente no início, isso exige esforço mental durante todas as horas em que está acordada — e, se a abstinência causar insônia, pode significar literalmente 24 horas.
Hoje, a maioria das pessoas não julga quem enfrenta uma dependência; elas celebram essas pessoas. Admitir que existe um problema demonstra caráter e força. Além disso, se alguém fosse julgar você por alguma coisa, provavelmente não seria pior do que quando você estava sob efeito da substância — só que você não percebia.
Quando há dependência de uma substância, o pensamento racional fica comprometido. Tudo passa a ser feito em função da próxima dose. O pensamento “racional” deixa de participar. Ainda assim, algumas pessoas — especialmente as que têm dependência de álcool — ficam em uma espécie de limbo: reconhecem que consomem a substância mais do que seria saudável, mas acreditam que outras conquistas justificam continuar usando.
Por exemplo, uma pessoa com dependência pode viver de salário em salário e ainda manter um emprego. Por isso, diz ser uma “pessoa alcoólatra funcional”. Isso é um mito. Não existe dependência funcional. Ter uma dependência coloca a pessoa em enorme desvantagem e a mantém sempre à beira de um colapso. Algumas conseguem executar a mesma tarefa todos os dias, mas perdem o controle se uma parte da rotina mudar — por exemplo, se forem transferidas para outro caixa. Pior: a falsa confiança de que funcionam normalmente apesar da dependência costuma levar a uma saída conturbada do trabalho, em vez de servir como sinal para buscar ajuda.
Drogas, álcool, alimentos e comportamentos — como jogos de azar e pornografia — podem causar dependência. A maioria alimenta nossa gratificação imediata, como um sistema de recompensas voltado para si mesmo.
Quando eletrodos são conectados aos centros de prazer do cérebro, ratos — e também pessoas — continuam estimulando a si mesmos. No livro de David Linden— A Origem do Prazer—ele descreve um experimento em que uma mulher deixou de cuidar da higiene pessoal e de ver a família para continuar aumentando a estimulação. Mesmo quando pediu aos amigos que tirassem o controle dela, não conseguiu resistir.
Mais uma vez, a dependência cria um desequilíbrio químico no cérebro. Em vez de considerar metas de longo prazo, o cérebro continua buscando recompensas imediatas de curto prazo. Esse funcionamento se torna cada vez mais habitual, e pensar no longo prazo fica progressivamente mais difícil, enquanto satisfazer o curto prazo passa a ser automático. Embora a genética tenha influência em muitos casos, praticamente qualquer pessoa pode desenvolver uma dependência.
Esse mito contribuiu para a atual crise dos opioides. Medicamentos prescritos estão entre as substâncias estimulantes com maior potencial de causar dependência. A situação se tornou tão grave que muitos estimulantes do sistema nervoso central (SNC) só são prescritos depois que todas as outras opções se esgotam.
Esse mito começou com os fabricantes de medicamentos. Embora seja fácil apontar o dedo para eles, várias partes têm responsabilidade, inclusive médicos e seguradoras, já que muitos planos cobrem medicamentos mais baratos, porém com maior potencial de dependência, em vez de alternativas menos capazes de causar dependência.
Muitas vezes, um centro de reabilitação pode parecer caro de início… mas raramente custa mais do que a dependência. Ferramentas como o aplicativo I Am Sober também funcionam como calculadoras de sobriedade, permitindo somar quanto você gastava, em média, por dia com a dependência. Assim, além de ver há quanto tempo está em sobriedade, você também descobre quanto dinheiro economizou — e os resultados costumam provocar suspiros, “Uau!” e “Nossa!”.
Dependendo do centro, a reabilitação pode custar de $2,000 a $25,000 por um programa de 30 dias. Embora esse valor total possa assustar, muitas dependências podem custar mais de $100,000 por ano.
No caso de uma pessoa com dependência de álcool, veja um exemplo de uma saída para um bar: $35 em bebidas, $30 no Uber para voltar para casa, $7 em uma compra por impulso na loja de conveniência, $10 em fast-food — já que a pessoa não vai cozinhar —, $20 em salários perdidos por acordar tarde depois da ressaca e $55 em uma multa de estacionamento porque precisou voltar de Uber na noite anterior. É um cenário hipotético de 24 horas, mas o custo total decorrente do álcool foi de $157. Isso se acumula rapidamente e nem inclui custos com bens perdidos ou danificados, atendimento de emergência ou multas policiais por dirigir sob influência de álcool.
A reabilitação não é barata, mas custa menos do que a dependência e é um bom ponto de apoio no caminho da recuperação.
I Am Sober é um aplicativo gratuito que ajuda você a retomar o controle da sua vida.