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A dependência química e a dependência física são dois tipos distintos de abuso de substâncias: a primeira está mais ligada a questões psicológicas, enquanto a segunda é mais fisiológica. É possível ter dependência física de uma droga sem ter dependência química, mas as duas formas de abuso de substâncias frequentemente afetam a mesma pessoa.
A dependência química já foi redefinida muitas vezes, inclusive de maneiras diferentes conforme a substância, mas a Sociedade Americana de Medicina da Dependência (ASAM) define a dependência química como uma “doença primária e crônica dos circuitos cerebrais de recompensa, motivação, memória e funções relacionadas”. Há algumas palavras importantes nessa definição que ajudam a distinguir dependência química de dependência física. Para começar, “doença”. Essa é uma palavra forte na comunidade de recuperação, pois há quem concorde plenamente com ela, quem discorde e também quem acredite que essa dicotomia precisa ser ignorada); é também por isso que muitas instituições médicas se referem à dependência como um transtorno, como o Transtorno por Uso de Álcool (AUD) ou o Transtorno por Uso de Substâncias (SUD), mas estou me desviando do assunto.
Seja qual for sua posição, a palavra “doença” é importante para entender a diferença porque, na medicina, uma doença pode ser curada, tratada ou controlada. Na dependência química, existe um comportamento compulsivo decorrente de uma reconfiguração do sistema de recompensa do cérebro, mas cada vez mais evidências mostram que o cérebro de algumas pessoas tem predisposição à dependência. É por isso que Sally pode tomar dez bebidas, acordar de ressaca e só voltar a beber no casamento de uma prima, enquanto Ross não consegue parar mesmo depois que todas as outras pessoas já pararam.
Embora o sistema de recompensa do cérebro possa se reconfigurar com o tempo, é essa predisposição que faz pessoas com dependência recaírem e retomarem antigos hábitos. Isso elimina a possibilidade de “controlar” a dependência química. Você não pode ser uma pessoa com dependência e aprender a controlar o uso da substância; não é possível simplesmente tomar “uma bebida”. O mesmo princípio elimina a ideia de “cura” para a condição, já que a saída é a abstinência completa. Em outras palavras: dói quando você movimenta o braço desse jeito? Então não o movimente mais assim.
A classificação como doença significa que a dependência química não pode ser curada nem controlada e, portanto, o caminho restante é o tratamento. Para uma pessoa em recuperação, o tratamento costuma envolver uma ampla rede de apoio, reuniões, planejamento de metas de longo prazo, reuniões, mudança de ambiente e reuniões.
Se aceitarmos que a dependência química é uma doença, a dependência física de drogas pode ser entendida como o sintoma ou comportamento que contribui para gerar a doença; assim como um cigarro pode causar câncer de pulmão, a dependência física de drogas pode levar à dependência química.
A dependência física de drogas é uma resposta mais fisiológica e geralmente é percebida na ausência da substância. Em geral, ela não está ligada a pessoas que buscam um barato, mas àquelas que querem se sentir normais. Pessoas com dependência física normalmente não veem a droga como uma parte essencial da vida, mas sentem sua ausência.
O exemplo mais comum de alguém com dependência física de drogas é o de pessoas que usam opioides para aliviar a dor. Médicos podem prescrever opioides após um acidente grave ou uma cirurgia de grande porte para reduzir a dor e acelerar a recuperação. Porém, muitos pacientes, especialmente aqueles com uma recuperação longa ou com doenças crônicas, acabam precisando de doses maiores à medida que o corpo desenvolve tolerância à droga. Novamente, isso não ocorre porque procuram ficar chapados, mas porque querem manter o corpo se sentindo normal.
Como resultado, o corpo desenvolve tolerância e passa a exigir drogas mais fortes ou quantidades maiores. É também por isso que a dependência física muitas vezes acompanha ou leva à dependência química. De certa forma, é possível pensar na dependência física como um sintoma de “porta de entrada” para a dependência química. A necessidade de substâncias mais potentes é o que frequentemente leva uma pessoa às drogas ilegais vendidas nas ruas, muitas vezes fazendo com que desenvolva dependência química.
A dependência química é resultado de uma questão mais psicológica. O sistema de recompensa do cérebro é reconfigurado e faz a pessoa pensar no uso da droga como pensa em alimentos: algo necessário para sobreviver. É também por isso que o comportamento de uma pessoa com dependência química é muito diferente do de alguém que tem dependência física de uma substância, mas não dependência química. A pessoa pode abrir mão de tudo para obter a droga que usa. Pode colocar em risco o emprego, a casa, as pessoas queridas e a própria segurança para encontrar e usar a substância. O cérebro é reconfigurado para acreditar que precisa da droga para sobreviver.
Se você já conviveu com alguém em modo de sobrevivência, sabe que essa pessoa pode ficar cada vez mais irritada, agressiva e imprevisível; pense na irritação provocada pela fome, mas de forma muito mais intensa. Sem a substância, alguém com dependência química apresenta sintomas de abstinência e uma forte fissura para encontrar e usar a droga novamente.
Enquanto isso, uma pessoa com dependência física de drogas pode apresentar sintomas físicos de abstinência, como vômitos, dores de cabeça e tontura, mas não entra no modo de sobrevivência de alguém com dependência química. Seu cérebro não diz que ela precisa da droga ou morrerá; seu corpo informa que está sentindo níveis intensos de dor e desconforto que só outra dose pode aliviar. Muitas pessoas conseguem comunicar essa diferença, ao contrário de alguém com dependência química, que literalmente não consegue pensar em outra coisa.
Os dois termos são usados com frequência como se fossem sinônimos, mas há diferenças claras. Infelizmente, elas ficam mais fáceis de perceber quando as pessoas afetadas já estão sofrendo gravemente. Por exemplo, alguém com dependência física severa não consegue funcionar nem ir ao trabalho sem uma dose da droga que usa. Já uma pessoa com dependência química pode ter perdido o emprego e afastado quem ama para sustentar o uso contínuo.
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