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A dependência é uma doença ou uma escolha? Essa questão atormenta muitas pessoas com dependência, médicos e defensores da área, sobretudo diante da enorme quantidade de desinformação existente — estou falando com você, internet. A resposta curta é “depende de quem você pergunta”, mas aqui vai um breve resumo das associações que consideram a dependência uma doença:
A Associação Médica Americana (AMA) reconheceu o “alcoolismo” como uma enfermidade em 1956 e a “dependência” como uma doença em 1987 Conselho Nacional dos Conselhos Estaduais de Enfermagem. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA) também classifica a dependência como doença, definindo-a como “uma doença crônica sujeita a recaídas, caracterizada pela busca e pelo uso compulsivos de drogas apesar das consequências prejudiciais” (DrugAbuse.gov). Em termos simples, ela reconfigura o cérebro e cria um desequilíbrio nos sistemas de recompensa, motivação e memória.
Nada disso deve ser desacreditado, mas há muitos conselhos médicos, comitês e organizações que discordam. Para deixar claro, essa discordância não significa que eles não considerem a dependência e o uso de drogas um problema; apenas entendem que o termo “doença” não é adequado. Por isso, às vezes se usa a palavra “escolha”.
Nesse sentido, é verdade que o primeiro uso de qualquer droga costuma ser uma escolha. Antes de desenvolver uma dependência, a pessoa precisou usar a droga voluntariamente. Isso vale antes da dependência e também durante a recuperação: a primeira dose ou o primeiro drinque é uma escolha — e o que vem depois muitas vezes vira um borrão. Sob essa perspectiva, a própria recuperação é uma escolha: a escolha de buscar a sobriedade. Mesmo assim, essa costuma ser a última escolha e, muitas vezes, é feita por nós, como em uma determinação judicial, mas ainda é uma escolha.
Dito isso, algumas pessoas citam relatos de quem tem dependência, acaba preso e consegue superá-la. É verdade que essas pessoas ficam sem acesso à substância, mas isso acontece. Também existem estudos interessantes com ratos que mostram que animais deprimidos são mais suscetíveis às drogas, enquanto ratos sociáveis e felizes não são, o que parece indicar que a questão tem menos a ver com desamparo e mais com o ambiente.
Algumas pessoas acreditam que chamar a dependência de “doença” simplifica demais a questão sem necessidade. Isso cria uma escolha binária: afirmar que ela é uma coisa e não outra transmite uma falsa sensação de segurança, como se fosse algo conhecido ou compreendido. Na verdade, quando alguém vive uma dependência, “não sabe”, e essa é a parte assustadora. Pense no álcool, por exemplo. Uma pessoa com dependência de álcool perde a capacidade de pensar racionalmente e, ainda assim, “racionaliza” por que não tem um problema. Quando o pensamento racional se perde, a pessoa não percebe que está sendo irracional, assim como alguém fora da realidade pode não perceber essa condição.
Isto não está em discussão: substâncias como álcool, metanfetamina e outros estimulantes têm efeitos diferentes em cada pessoa. A genética influencia a probabilidade de alguém desenvolver dependência de alguma coisa — qualquer coisa —, e as substâncias podem gerar dependência. O corpo e o cérebro, já que muitas drogas ilícitas afetam diretamente o sistema nervoso central, podem se tornar dependentes da substância. Todas as drogas alimentam o sistema de “recompensa” do cérebro, e a pessoa passa a buscar a gratificação imediata provocada pela droga, que pode substituir a necessidade de planejamento e metas de longo prazo. É por isso que alguém pode deixar de ir ao trabalho ou magoar quem ama. Mais uma vez, isso foi verificado e é compreendido no cérebro de pessoas com dependência.
Mas como isso deve ser chamado? Quando surge a pergunta inevitável — a dependência é uma doença ou uma escolha? —, a resposta parece um “ambos” sem compromisso. É aqui que entra Marc Lewis, Ph.D. Lewis disse ao The New York Times: “Há um debate intenso sobre se a dependência é uma doença ou uma escolha, mas considero isso uma falsa dicotomia.”
O termo “doença” tende a descartar a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade natural do cérebro de se adaptar e mudar. A “doença” é vista como um estado final, um problema que não pode ser revertido, alterado ou corrigido. Um exemplo é a doença de Alzheimer.
O neurocientista Marc Lewis considera a dependência um “transtorno ou até algo patológico”. Você pode perguntar: que diferença faz ser uma doença ou um transtorno? O Dr. Lewis também tem uma resposta: “Se você tem uma doença, é paciente. Se é paciente, segue as orientações do médico e faz o que lhe dizem... Se entra em reabilitação, coloca-se nas mãos de outra pessoa, mas a melhor forma de combater a dependência é definir metas para si” (The Guardian, 2015).
Algumas pessoas concordam com essa ideia mesmo acreditando que a dependência é uma doença. Defensores convictos dos centros de reabilitação apoiam o tratamento após a internação por meio de metas, mudanças de rotina e uma rede de apoio, pois o período na reabilitação não basta para combater uma doença que acompanha a pessoa ao longo da vida.
Pessoas com dependência têm uma química cerebral muito diferente daquelas sem dependência, mas talvez “doença” não seja o termo correto. Isso não significa que “escolha” seja a palavra certa, e sim que se trata de algo singular. Ainda hoje, o diagnóstico médico para a dependência de álcool é “Transtorno por Uso de Álcool” (AUD), mas isso mudou nos últimos 5 anos; antes, podia ser considerado um comportamento ou classificado como abuso de substâncias.
O ponto em que todos concordam é que a dependência é um problema que precisa ser enfrentado. Se isso exige mudar a maneira como falamos e pensamos sobre o problema, precisamos tomar a iniciativa.
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