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Muitas pessoas se perguntam por que alguém com dependência não consegue simplesmente “parar”. Quando uma pessoa com alcoolismo acorda com uma ressaca devastadora, ou quando a dependência de drogas leva alguém ao hospital, muitos amigos e familiares aproveitam a situação para organizar uma intervenção… e depois ficam frustrados quando a pessoa volta ao uso abusivo de substâncias.
As pessoas com dependência sabem aonde o hábito leva e, mesmo assim, não conseguem dizer “já chega” nem se afastar de uma situação tentadora que sabem que terminará mal. Mas o motivo não é — ou raramente é — falta de respeito por quem está ao redor; trata-se de um desequilíbrio mental.
Há duas partes do nosso cérebro que, na maioria das pessoas, trabalham em harmonia para o nosso bem-estar geral: o consciente e o inconsciente; o deliberado e o automático; o autocontrolado e o impulsivo. Para funcionar, você precisa dos dois. Por exemplo, dirigir até o supermercado, em vez de parar para comer fast-food, é uma ação autocontrolada e mais econômica; já a natureza impulsiva do cérebro ajuda você a evitar um acidente quando alguém invade a sua faixa. Isso também evidencia outro ponto: a parte impulsiva do cérebro funciona com relativamente pouco esforço, enquanto a parte controlada exige alguma análise e tempo.
Essas duas partes do cérebro deveriam trabalhar juntas para ajudar você a avaliar objetivos de curto e longo prazo. Porém, para uma pessoa com dependência, uma parte do cérebro assume o volante e sobrepuja a outra. Por isso, ressacas terríveis e internações nem sempre bastam para que a pessoa simplesmente “pare”. Quando a droga oferece um ganho tão imediato, os efeitos de longo prazo não são processados. Pensando bem, isso também explica por que uma pessoa que não enfrenta dependência consegue tomar uma ou duas cervejas e se dar por satisfeita, enquanto alguém com dependência não consegue. Quem não vive com dependência reconhece quantas cervejas pode tomar antes de precisar considerar os efeitos colaterais, beber um copo d’água ou parar. Esse, no entanto, é um processo de pensamento de longo prazo. A pessoa com dependência não pensa se já bebeu o suficiente nem no efeito que isso terá no dia seguinte. Ela pensa no copo que está em sua mão, e decidir se ele precisa ser reabastecido é o mais longe que consegue enxergar no futuro.
Além disso, a impulsividade se torna compulsiva quando diversas situações passam a servir de gatilho. Evidentemente, seria difícil beber muito sem haver bebida alcoólica por perto, como no zoológico ou na Disneyland, mas o que leva a pessoa com dependência a procurar a droga é o surgimento de uma compulsão. Vários gatilhos — um assunto de conversa, um evento, um programa de TV etc. — fazem a pessoa se lembrar da droga e ir atrás dela. Quem está em recuperação conhece isso muito bem: não estar usando a droga não significa que ela deixou de exercer controle.
Para se recuperar e manter a sobriedade, você precisa restabelecer conscientemente o equilíbrio entre essas duas partes do cérebro ou, como Daniel Kahneman as chama, os dois processos. É preciso reduzir a impulsividade e fortalecer o autocontrole.
Daniel Kahneman recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2002 e escreveu extensamente sobre as duas partes do nosso cérebro, junto com seu colaborador Amos Tversky. Para dar uma ideia da influência da pesquisa dos dois, o colunista David Brooks, do New York Times, chamou-os de “Lewis e Clark da mente” (New York Times, 2011).
Entre as pesquisas de Kahneman, ele conduziu diversos estudos para medir a felicidade das pessoas e percebeu uma grande diferença entre o bem-estar “vivenciado” e o bem-estar “lembrado”. Mais tarde, ele chamaria isso de regra do pico-fim. A ideia é que as pessoas lembram de uma experiência com base no seu pico — a parte mais intensa — e no final, em vez de considerar a soma ou a média de todos os momentos.
Para medir isso, ele submeteu dois grupos a colonoscopias dolorosas — sim, é verdade. Os dois enfrentaram a mesma intensidade de dor, mas o segundo grupo passou por um desconforto adicional no fim do exame — não “doloroso”, mas incômodo: o instrumento foi mantido por mais 3 minutos. Surpreendentemente, Kahneman descobriu que as pessoas do segundo grupo se lembravam da experiência de forma mais positiva do que as do primeiro. Segundo sua conclusão, isso aconteceu porque a experiência do Grupo A terminou no pico da dor, enquanto a “dor” do Grupo B foi atenuada por um final desconfortável, porém não doloroso.
Isso pode explicar por que algumas pessoas com dependência voltam à droga de preferência, enquanto outras iniciam sua jornada de recuperação depois de uma experiência especialmente ruim. Quem acorda no hospital pode não associar as duas situações e, por isso, lembrar apenas do auge do evento e de como ele terminou. Se o pico foi bom e o final também foi bom — antes de um apagão —, é compreensível que a pessoa volte à droga apesar da internação. O cérebro registrou o evento e guarda uma lembrança positiva. Por outro lado, quem manteve consciência suficiente durante o episódio mais recente de uso de drogas ou consumo excessivo de álcool para sofrer as consequências consegue perceber o problema porque se lembra da experiência no seu pior momento, quando ela terminou.
A regra do pico-fim também ajuda a explicar por que algumas pessoas acham — e outras precisam — que quem vive com dependência deve chegar ao “fundo do poço” antes de buscar ajuda. Se a última experiência lembrada tiver sido ruim o bastante, elas podem acreditar que isso bastará para conduzir a pessoa por um novo caminho.
Se você pensar na última vez em que usou drogas e se lembrar de como se sentiu mal, isso pode ser útil. Essa lembrança ajudará você a preservar a sensação e aumentará a probabilidade de se abster. Mas, se você pensar na última vez em que usou drogas e guardar uma lembrança positiva, lembre-se de que não está reconstruindo a história inteira. Sabendo como a memória funciona, tente enxergar o quadro completo e pensar no longo prazo para afastar o impulso de beber.
Sem dúvida, esse é um dos principais motivos pelos quais muitas pessoas desenvolvem dependência cedo e não conseguem escapar dela. Muitas drogas fazem a pessoa vivenciar o pico… e ter um apagão antes que as coisas fiquem ruins. Assim, a regra do pico-fim alimenta os impulsos. O melhor que você pode fazer daqui para a frente é levar esse conhecimento consigo. Lembre-se do que o seu cérebro está fazendo e de qual processo está atuando, e use isso para evitar decisões das quais poderá se arrepender.
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