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Você pode chamar de transtorno, doença ou escolha. No fim das contas, isso não importa para mim, porque ainda é quase impossível para quem não tem uma dependência entender como é depender de alguma coisa, seja ela qual for. Ou você vive isso, ou não. Embora existam pessoas boas, muito mais inteligentes do que eu jamais serei, realizando inúmeros estudos e pesquisas sobre o assunto, pelo que vi, pouquíssimas delas têm uma dependência. Se você nunca sentiu a necessidade de continuar bebendo, não sabe como é parar de beber.
Acho que o termo "fissura" é parcialmente responsável por muitas ideias equivocadas sobre pessoas com dependência. As pessoas ouvem "fissura" e associam isso à comida. Pensam em fissura como aquela vontade que surge ao passar por uma sorveteria e sentir o cheiro de casquinhas recém-feitas. De repente, querem sorvete, mas esse é um impulso passivo que dura pouco. Não é algo que as corrói por dentro.
Outras pessoas levam a analogia com comida um pouco além e a comparam a algo mais sério. "Sentir fissura durante a sobriedade é como ficar com fome e irritação ao mesmo tempo, certo? Seu estômago está vazio, o atendimento no restaurante demora, você está cansado/a, irritado/a e sem energia, e só consegue pensar em comer." Isso se aproxima mais, mas ainda está muito longe da fissura causada pela dependência. A fome com irritação continua sendo uma sensação de curto prazo, que cresce devagar. A fissura não é lenta. Ela é prolongada, espontânea e persistente.
Passar fome é o termo ligado à comida que mais se aproxima de representar uma fissura. E você não sabe o que é "passar fome" se nunca sofreu de inanição. É como visualizar a areia da ampulheta acabando enquanto você se desespera, entra em pânico, reza, espera e negocia por qualquer coisa que sacie a fome. Tudo o que vê é mentalmente pesado e avaliado. Dá para comer? Pode ser usado para chegar mais perto da comida? Você se transforma em uma pessoa catadora com olhar de Sherlock Holmes, examinando rapidamente a cena: três latas no lixo, o ponto de reciclagem a dois quarteirões, outros 7 cestos de lixo no caminho; talvez dê para juntar alguns reais, penhorar uma jaqueta e ainda pegar o ônibus das 8h30 para a loja de bebidas. É uma façanha. Sempre que desejo ter essas habilidades durante a sobriedade, lembro que elas vinham do desespero, não da paixão.
Prefiro abandonar completamente as analogias com comida e dizer às pessoas que a "fissura" parece um afogamento. O mundo ao seu redor poderia estar em chamas; você poderia até ter perdido um membro ou sofrido uma concussão. Nada disso importaria: você precisa respirar.
Embora todas essas comparações cheguem perto de descrever uma fissura, elas não explicam realmente como ou por que ela acontece. A pior parte de o termo estar tão ligado à comida é que a maioria de nós controla o que come. Além disso, não é difícil encontrar comida barata. Assim, seja qual for a imagem relacionada à alimentação usada, como inanição, fome com irritação ou um aroma que desperta o impulso, tudo volta à questão do controle. A comida não está longe do alcance, então a culpa parece ser sua por não ter tomado café da manhã e decidido ir a um restaurante no horário de pico.
Porém, graças à popularização relativamente recente de um fenômeno específico, finalmente encontrei uma forma de comunicar como a fissura surge e como é o impulso de atender a esse chamado.
Foi aí que finalmente encontrei a resposta: algo com que a maioria das pessoas hoje consegue se identificar, entender e até sofrer, tudo graças aos smartphones — a síndrome da vibração fantasma. Pessoas com dependência, em recuperação ou sem dependência parecem saber como é essa sensação. Encontrei nisso uma maneira de ajudar os outros a entender como é a dependência. A causa não é conhecida, mas suspeita-se de dois fatores:
Uso excessivo do celular
Expectativas que levam à interpretação incorreta de estímulos sensoriais
Primeiro, o uso excessivo do celular é evidente, porque parece que todos fazemos isso. Estudos demonstraram : a síndrome da vibração fantasma pode surgir apenas um mês depois que a pessoa começa a carregar um celular consigo.
A segunda parte é igualmente fascinante. Se você espera a ligação de alguém com quem saiu, o retorno de uma entrevista de emprego ou a chegada de uma encomenda, seu cérebro pode interpretar sensações sutis como a vibração do celular. Isso acontece mesmo quando o aparelho não está com a pessoa, seguido pelo pânico adicional de "onde está meu celular?!" É isso. Para quem não tem dependência, é assim que acontece quando surge uma fissura.
Você pode estar fazendo qualquer coisa: passeando com o cachorro, jogando videogame, fazendo compras, dirigindo, caminhando por uma trilha, pintando, qualquer coisa. De repente, surge uma fissura. Você não quer ceder, mas, assim como a mão dispara em direção ao bolso para conferir se o celular está mesmo tocando, faz isso sem perceber. Você precisa verificar.
Aos meus amigos que não têm dependência, sugiro passar um dia sem o celular e se lembrar de que não estão com ele antes de tentar pegá-lo por impulso. Sem exceção, eles entendem. Mesmo entre os poucos que aceitaram o desafio, percebo que tentam pegar o aparelho quando alguém pede uma orientação ou quando nos sentamos para almoçar. É inconsciente e pode acontecer a qualquer momento, apesar de a pessoa saber que está sem o celular.
Novamente, isso explica como acontece, não como se sente — embora o pânico de algumas pessoas ao perceber que estão sem o celular talvez chegue perto.
Essa comparação finalmente funciona quando tento descrever a fissura a quem não tem dependência. E acaba de vez com a conversa quando aparece aquele babaca que diz: "É fácil 'não' fazer algo. Não quero saltar de paraquedas, então não salto." Se, toda vez que sentisse uma vibração fantasma, você entrasse de repente em pânico e sentisse uma fome extrema, teria uma boa ideia de como é a fissura para uma pessoa com dependência.
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