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“Praticar os passos” torna-se a expressão habitual de quem está no processo de recuperação, e isso é ótimo. Em vez de dizer “Sinto muito”, “Eu não deveria ter feito isso” ou “Se ao menos...”, você concentra a atenção em seguir em frente: praticar os passos. É claro que ninguém disse que isso seria fácil. Um dos passos mais desafiadores é o quarto (até chegar ao quinto).
Em AA, o quarto passo faz parte do programa de 12 passos apresentado no “Livro Azul” de AA, que orienta as pessoas durante o processo de recuperação. O quarto passo, em particular, envolve criar um inventário moral de nós mesmos. Isso significa identificar nossos comportamentos e por que agimos dessa forma. Significa olhar com honestidade para o espelho e reconhecer que somos responsáveis por nosso comportamento — não nossos cônjuges, as instituições ou outras pessoas.
Alguns exemplos podem ser:
Sinto raiva e desconto essa raiva nas pessoas com quem me importo.
Sou egoísta e me concentro nas minhas próprias necessidades, em vez de considerar as necessidades de quem amo.
Sinto medo e minto, afastando meus amigos e minha família.
Muitas pessoas começam esse passo de AA fazendo uma lista de pessoas por quem guardam ressentimento. Isso pode incluir amigos, familiares, juízes, policiais, atendentes de lojas e qualquer outra pessoa.
A partir daí, podemos começar a identificar por que sentimos tanto ressentimento e nos abrir para enxergar o quadro geral. Por exemplo, se você percebe que ainda guarda rancor de um policial que parou seu carro, procure entender o que deixou você chateado/a. Como você foi tratado/a? Foi injusto? Como isso afetou sua autoestima, seus relacionamentos e suas finanças?
Depois de identificar essas duas primeiras partes, fica claro qual foi o verdadeiro erro e, principalmente, qual foi sua responsabilidade. Se você for autuado/a por DUI, receber uma multa, tiver a carteira de habilitação suspensa, passar uma noite na cadeia e não puder mais se deslocar até o emprego atual, talvez guarde ressentimento do policial que parou você. Isso prejudicou suas finanças, sua autoestima e sua qualidade de vida como um todo. Mas, ao olhar novamente para a situação, fica claro que não foi o policial que provocou essa sequência de acontecimentos — foi seu comportamento. Seria fácil culpar outra pessoa ou outra coisa, mas, ao decidir beber e dirigir, você aceita essas consequências como parte do risco. Para muitas pessoas no quarto passo, esse é outro componente crucial da elaboração de um inventário pessoal: enxergar o erro de forma objetiva. Nesse caso, o erro foi infringir a lei e não querer receber uma punição. Em última análise, esse é um comportamento egoísta.
Percorrer o quarto passo em AA pode ser uma tarefa intimidadora para muitas pessoas. Criar um inventário pessoal exige honestidade e autorreflexão. Embora essas qualidades sejam necessárias para uma recuperação duradoura, é comum encontrar desafios ao longo do caminho.
Criar um inventário moral completo exige tempo e esforço. Muitas pessoas têm dificuldade para encaixar essa tarefa na rotina diária. Reservar um horário específico todos os dias para refletir e escrever pode tornar o processo mais administrável. Dedicar apenas 15 minutos por dia ao inventário do quarto passo já pode fazer diferença.
Se você não conseguir fazer tudo de uma vez, tente dividir seu inventário em partes menores. Concentre-se em um relacionamento ou comportamento de cada vez. Isso pode ser mais eficaz do que tentar abordar tudo ao mesmo tempo. Assim, você reduz a sensação de sobrecarga e consegue manter a constância com mais facilidade.
Algumas pessoas consideram especialmente difícil a parte de escrever no quarto passo. Isso pode acontecer por dificuldade de colocar os pensamentos no papel ou por não saber por onde começar. Se você se identifica com isso, tente métodos alternativos, como gravar áudios ou falar em voz alta enquanto anota os pontos principais.
Você também pode pedir ajuda a uma pessoa de confiança para colocar seus pensamentos em palavras. Esse esforço conjunto pode tornar a tarefa menos intimidadora. Não hesite em buscar apoio com seu padrinho ou sua madrinha de AA, ou com outros membros que já passaram pelo processo.
O quarto passo também é cercado de equívocos, muitos deles voltados a alimentar suas inseguranças e seus medos. Por isso, é importante esclarecer o que o quarto passo não é.
Construir um inventário pessoal do seu comportamento deve trazer clareza, não humilhação. Você já tomou a decisão de melhorar ao escolher alcançar a sobriedade. A lista permite enxergar como você agiu no passado — e por quê. Assim, você conhece melhor seus comportamentos e se esforça para agir de outra forma. Em geral, quem conclui o quarto passo sai dele com mais confiança e segurança. Essas pessoas enxergam onde podem melhorar e, como integrantes sóbrios da sociedade, percebem que superar esses obstáculos não é tão difícil.
Ao fazer uma lista, você também consegue enxergar de onde veio e o que esse lado mais sombrio de si fez. É importante reconhecer que provavelmente você não havia parado para analisar de verdade como poderia melhorar, quaisquer que tenham sido seus ressentimentos do passado. Ao fazer o inventário, você já avançou muito em relação ao ponto de partida, e isso deve inspirar você.
O quarto passo não tem o objetivo de derrubar você, mas isso não significa que você deva ser condescendente com seus comportamentos do passado. Tentar minimizar o impacto deles não levará a uma recuperação duradoura. Isso só levará a justificativas irracionais de que você “não era tão ruim assim” quando estava sob efeito de drogas ou embriagado/a. Portanto, embora você não deva se punir pelo que fez no passado, também não deve tentar defender ou amenizar suas ações.
Ao fazer a lista do inventário do quarto passo, seja honesto/a consigo. Essa é uma oportunidade de observar sua vida e seu comportamento pela perspectiva de alguém de fora. Isso significa encarar tudo o que você vinha escondendo. Por exemplo, uma área que muitas pessoas em recuperação evitam são os encontros sexuais. Ao elaborar um inventário das pessoas que feriram ou prejudicaram, elas ignoram atos sexuais que podem ter machucado alguém. Isso inclui mentir que ligariam no dia seguinte ou trair uma pessoa amada.
Ao retirar a substância da qual você dependia, a frequência desses comportamentos provavelmente mudará. Mas enfrentar a dependência é uma luta para a vida toda. Por isso, você precisa ser honesto/a consigo se quiser superar esses comportamentos. Eles não desaparecerão se não forem enfrentados. Assim como acontece com a dependência, para resolver um problema você precisa admitir que ele existe.
Ao fazer um inventário moral pessoal, é fácil se sentir só e começar a ficar deprimido/a. Mesmo quando não estão se punindo, as pessoas podem ter dificuldade para imaginar como resolverão ou repararão todo o dano que causaram. Pode parecer algo esmagador, intransponível e até impossível — mas não é.
Antes de tudo, você não está sozinho/a. Muitas pessoas em recuperação praticam os passos. Embora o inventário seja uma lista feita para você, isso não significa que outras pessoas não tenham passado pelo mesmo processo. Você não precisa dar detalhes sobre quem machucou ou quais erros cometeu. Mas saiba que outras pessoas com dependência também cometeram erros e feriram outras pessoas. Não sinta que precisa fazer essa lista e guardar tudo dentro de si. Você pode compartilhar os desafios e as emoções que surgem ao catalogá-la, e outras pessoas ajudarão você a atravessar esse processo.
Participar de uma reunião de AA ou de uma terapia em grupo pode oferecer o apoio tão necessário. Além disso, a terapia individual pode ajudar você a lidar com as emoções que surgem durante o processo de recuperação.
Em segundo lugar, lembre-se de que muitos desses problemas parecem enormes porque você reconfigurou seu sistema de recompensa. Como resultado, você quer uma solução imediata. Mas a reparação leva tempo. A sensação de que é impossível superar as consequências da dependência é um resquício de um cérebro reconfigurado. Por isso, embora seu impulso seja correr para pedir desculpas, usamos a frase: “A melhor forma de pedir desculpas é mudar o comportamento.” Mude seu comportamento e os problemas serão resolvidos. Só é preciso tempo.
O importante é manter o compromisso com sua jornada de recuperação e assumir responsabilidade pessoal por suas ações. Com as opções de tratamento e o apoio adequados, as pessoas podem encontrar um caminho para a cura e o crescimento pessoal.
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